IA e o futuro: quanto custa não preservar a nossa cultura?
Quando se fala de Inteligência Artificial e do futuro, a conversa vai quase sempre parar ao emprego, à produtividade, à automação ou à competitividade. Tudo isto é importante. Mas há outra questão que me interessa particularmente: o que acontece à nossa cultura quando uma parte crescente daquilo que pesquisamos, escrevemos, traduzimos, vemos e aprendemos passa por sistemas de Inteligência Artificial?
É neste contexto que faz sentido olhar para o AMALIA, o modelo de linguagem aberto desenvolvido em Portugal com prioridade ao português europeu e ao contexto português. O projeto arrancou com um investimento de 5,5 milhões de euros. É muito dinheiro, mas um museu também custa milhões, uma biblioteca custa dinheiro e um arquivo custa dinheiro. Preservar património sempre teve um custo e, por isso, talvez a pergunta mais interessante não seja apenas quanto custa o AMALIA.
Quanto custa não preservar uma cultura na era da Inteligência Artificial?
Em resumo
A língua é uma das formas mais fortes de expressão de uma cultura. Nela estão palavras, símbolos, referências, humor, metáforas, datas, acontecimentos, costumes e maneiras próprias de interpretar o mundo. Portugal ajudou a transformar o português numa língua global, mas representa hoje uma pequena parte da população que a utiliza.
Num mundo em que os modelos de Inteligência Artificial aprendem através de grandes quantidades de dados, esta diferença de escala interessa. É por isto que vejo o AMALIA também como uma espécie de museu digital vivo, não um arquivo congelado do passado, mas uma infraestrutura que ajuda a garantir que a nossa língua, a nossa memória e as nossas referências continuam presentes na tecnologia que as próximas gerações vão utilizar todos os dias.
A língua está viva
Antes de falar de tecnologia, convém perceber aquilo que queremos preservar. Cultura não é apenas literatura, pintura, música ou património. É também o conjunto de crenças, valores, símbolos, hábitos, tradições e significados que uma comunidade partilha. Está numa bandeira ou num monumento, mas também numa piada que só percebemos porque crescemos num determinado contexto, num provérbio, numa referência histórica, numa forma de cumprimentar alguém ou numa expressão que não precisa de ser explicada porque quem está do outro lado já percebe o que queremos dizer.
A língua transporta grande parte desta cultura. Não é apenas um conjunto de palavras alinhadas num dicionário. Há expressões que deixam de fazer sentido quando são traduzidas palavra por palavra, há metáforas, ironia, humor, duplos sentidos e formas de tratamento que dependem de um contexto partilhado. Saber que o 25 de Abril aconteceu em 1974 é informação. Perceber o que um cravo representa neste contexto, reconhecer determinadas músicas, imagens ou expressões já nos leva para outro território, o da cultura.
Mas preservar uma língua não significa congelá-la. Uma língua que está viva muda porque mudam também as pessoas que a utilizam. Surgem tecnologias, objetos, profissões e formas de relacionamento novas, aparecem palavras, outras desaparecem, algumas são importadas e outras transformadas. Isto não é necessariamente decadência. Muitas vezes é apenas evolução.
Basta juntar pessoas de idades diferentes à mesma mesa para perceber isto. Quem cresceu nas últimas décadas incorporou palavras e expressões que não aparecem com a mesma frequência no discurso de gerações anteriores. “Ya” é um exemplo, “bué” é outro e “ok” tornou-se tão normal que praticamente já nem pensamos na sua origem quando o utilizamos. Há quem olhe para estas palavras e veja uma perda de qualidade da língua, da mesma forma que há jovens que ouvem determinadas construções utilizadas pelos avós e acham imediatamente que são “coisas antigas”.
As gerações veem filmes e séries diferentes, ouvem músicas diferentes, crescem com tecnologias diferentes, acompanham acontecimentos diferentes e recebem influências diferentes. Tudo isto acaba por aparecer na forma como falam. A língua vai registando estas mudanças e é precisamente isto que torna interessante imaginar o que alguém, daqui a cinquenta ou cem anos, poderá querer saber sobre a forma como falávamos hoje. Não apenas que palavras existiam no dicionário, mas que expressões utilizávamos, que imagens reconhecíamos e que referências entendíamos imediatamente.
Mia Couto e uma palavra ouvida na rua
Numa entrevista, Mia Couto fala da relação que tem com as palavras e conta um episódio que ilustra bem a forma como a língua se transforma fora dos livros e das academias. Estava na rua e viu trabalhadores da construção civil a tratar de algo num passeio. Foi aí que ouviu um deles utilizar a palavra “improvisório”.
A palavra juntava “improvisado” e “provisório” para descrever algo que era, ao mesmo tempo, as duas coisas. Mia Couto não a tinha inventado. Tinha acabado de a ouvir na rua, criada no uso quotidiano da língua por alguém que precisava de exprimir uma ideia para a qual nenhuma das duas palavras, sozinha, chegava exatamente.
Gosto deste exemplo porque mostra aquilo que uma língua viva faz. Muda, adapta-se e cria novas formas de expressão à medida que as pessoas precisam delas. Preservar o português não significa impedir esta transformação. Significa garantir que conseguimos perceber como a língua mudou, de onde vieram determinadas expressões e como diferentes gerações e comunidades a foram transformando.
O mirandês mostra a outra face da mesma questão. A Lei n.º 7/99 reconhece o direito a cultivar e promover a língua mirandesa enquanto património cultural e elemento da identidade da Terra de Miranda. Aqui a preocupação já não está apenas em observar uma língua que muda, mas em garantir que uma língua utilizada por uma comunidade pequena continua a passar de geração em geração.
Se uma língua desaparecer, não desaparece apenas uma lista de palavras. Perdem-se pronúncias, histórias, cantigas, formas de humor, maneiras de nomear lugares e referências que só fazem sentido dentro daquela comunidade. A tecnologia permite hoje registar texto, voz, pronúncia, histórias orais e documentos, enquanto a Inteligência Artificial acrescenta novas formas de pesquisar, traduzir, aprender e interagir com este património.
Portugal tornou-se minoritário dentro da língua que levou ao mundo
Portugal tem aqui uma situação particularmente curiosa. A língua portuguesa é hoje uma das grandes línguas do mundo, com mais de 265 milhões de falantes espalhados por vários continentes. Isto é uma consequência extraordinária da expansão histórica da língua, mas criou também um paradoxo: Portugal ajudou a levar o português ao mundo e acabou por se tornar uma parte relativamente pequena da população que hoje o utiliza.
Portugal tem cerca de 11,5 milhões de residentes, enquanto o Brasil ultrapassa os 213 milhões. Grosso modo, falamos de cerca de 19 residentes no Brasil por cada residente em Portugal. Isto não significa que existam exatamente 19 vezes mais dados brasileiros na Internet ou nos conjuntos utilizados para treinar modelos, mas mostra a ordem de grandeza.
E o Brasil não é apenas um país muito maior. É também um país altamente ligado à Internet. Em 2024, o IBGE estimava que cerca de 89% das pessoas com 10 ou mais anos utilizavam a Internet, o equivalente a aproximadamente 168 milhões de pessoas. Portugal também apresenta níveis muito elevados de utilização. A questão não está, por isso, num país estar digitalizado e o outro não. Está sobretudo na dimensão.
Há simplesmente muito mais pessoas no Brasil a escrever, publicar, comentar, gravar vídeos, criar páginas, produzir legendas e participar no espaço digital em português. Num mundo em que os modelos aprendem através de dados, isto interessa.
Os dados também têm uma demografia.
Há um pequeno detalhe no YouTube que gosto de usar para ilustrar esta questão. Nas opções de tradução automática aparecem separadamente “Portuguese” e “Portuguese (Portugal)”.
A imagem é um exemplo simples da forma como o português de Portugal aparece identificado de forma específica num espaço digital em que a escala brasileira é muito maior. Quando passamos das interfaces para os modelos de Inteligência Artificial, deixamos de estar apenas perante uma observação. O próprio trabalho científico desenvolvido no âmbito do AMALIA identifica o português europeu como sub-representado nos dados utilizados para treinar modelos e nas avaliações criadas especificamente para medir as suas capacidades.
Isto é importante porque o problema deixa de ser apenas aquela experiência ocasional em que pedimos uma resposta em português e recebemos palavras ou construções que não usamos em Portugal. Estamos perante uma questão de representação. Se uma variante tem muito mais conteúdo disponível, é natural que tenha também muito mais presença nos sistemas que aprendem a partir desse conteúdo.
AMALIA como museu digital
É aqui que, para mim, começa verdadeiramente a fazer sentido olhar para o AMALIA para além da tecnologia. Durante séculos construímos museus, bibliotecas e arquivos porque percebemos que a memória não se preserva sozinha. Um museu não é apenas um edifício cheio de objetos. Existe um trabalho de investigação, conservação, catalogação e seleção destinado a garantir que aquilo que uma comunidade considera importante atravessa gerações.
Benedict Anderson, em “Comunidades Imaginadas: Reflexões sobre a Origem e a Expansão do Nacionalismo”, analisa a forma como as comunidades nacionais são construídas e, na edição revista da obra, dedica um capítulo ao censo, ao mapa e ao museu. O que me interessa aqui não é transformar Anderson numa explicação sobre Inteligência Artificial, mas recuperar uma ideia útil para este paralelismo: os Estados constroem instrumentos através dos quais representam a sua população, o seu território e o seu passado.
Os museus fazem parte desta construção. Preservam património, mas também ajudam a selecionar, organizar e transmitir uma determinada narrativa sobre aquilo que um país considera importante recordar. Não é possível colocar toda a história de um país dentro de um museu. Há escolhas sobre aquilo que entra, aquilo que recebe destaque, a forma como é explicado e a relação que se estabelece entre diferentes acontecimentos.
Os modelos de Inteligência Artificial vão acrescentar uma nova camada a este processo. À medida que passam a mediar a forma como pesquisamos, aprendemos e acedemos ao conhecimento, também passam a participar na forma como uma cultura, uma sociedade ou um Estado é apresentado às pessoas.
Se os museus ajudam os Estados a preservar e transmitir narrativas sobre o passado, os modelos de Inteligência Artificial vão participar cada vez mais na forma como essas narrativas chegam às gerações futuras.
É por isto que gosto de pensar no AMALIA como uma espécie de museu digital vivo da cultura portuguesa. Não porque um modelo de linguagem seja literalmente um arquivo e não porque deva congelar Portugal numa versão oficial e imutável. A ideia é garantir que a nossa língua, as datas da nossa história, os nossos costumes, as nossas referências, as nossas formas de falar e a nossa memória têm representação suficiente nos sistemas que vão fazer parte do quotidiano.
Hoje, um modelo generativo ainda parece uma novidade. Abrimos o ChatGPT, o Gemini ou o Claude e temos consciência de que estamos “a usar IA”. Para as crianças que estão agora a crescer, dificilmente será assim durante muito tempo. Estes sistemas vão estar integrados na escola, nos telemóveis, nos motores de pesquisa, nos sistemas operativos e nos serviços que utilizam todos os dias. A Inteligência Artificial vai deixar progressivamente de ser um destino ao qual vamos e passará a ser uma camada tecnológica que está por baixo de muitas das coisas que fazemos.
Se estas tecnologias vão mediar cada vez mais aquilo que as gerações futuras pesquisam, aprendem e criam, então importa garantir que, quando perguntarem sobre Portugal, encontram mais do que uma aproximação estatística daquilo que somos. Que conhecem as datas, mas também os símbolos associados a essas datas, que conhecem as palavras, mas também as expressões, que reconhecem os costumes, os lugares, as figuras e as várias formas que a nossa língua foi assumindo.
Os modelos também ajudam os Estados a construir narrativas
A China oferece um exemplo particularmente claro de como isto pode acontecer. As regras aplicáveis aos serviços de Inteligência Artificial generativa naquele país determinam que estes devem respeitar os chamados “valores socialistas centrais” e estabelecem restrições relativamente a conteúdos que possam colocar em causa a unidade nacional. Um modelo desenvolvido e disponibilizado neste contexto não está, por isso, desligado da forma como o Estado chinês interpreta determinadas questões.
Taiwan é um dos exemplos mais evidentes. Pequim considera Taiwan parte da China e defende a reunificação, enquanto Taiwan é governada separadamente desde 1949, com instituições políticas, eleições e administração próprias. Modelos chineses como o DeepSeek têm sido observados a recusar determinadas perguntas ou a apresentar respostas alinhadas com a posição oficial chinesa quando o tema é Taiwan ou outras questões politicamente sensíveis.
Não uso este exemplo para defender que Portugal faça o mesmo. O ponto é outro. Os modelos não são máquinas neutras colocadas fora da sociedade. Aquilo que sabem, os dados que recebem, as regras a que obedecem e os critérios segundo os quais são avaliados influenciam a forma como apresentam o mundo.
Se isto é evidente numa questão política como Taiwan, também devemos pensar no que acontece com matérias aparentemente menos sensíveis, como a língua, a história ou os costumes. Uma referência portuguesa que para nós é óbvia pode ter pouco peso num modelo criado para servir um mercado global. Uma expressão que utilizamos diariamente pode aparecer poucas vezes nos dados. Uma determinada memória histórica pode simplesmente ser menos representada porque existem muito mais conteúdos produzidos noutros contextos.
É exatamente aqui que entra a ideia de soberania. Não como isolamento, nem como tentativa de criar uma verdade oficial portuguesa, mas como capacidade para participar nesta construção. Ter conhecimento, dados, especialistas e infraestrutura suficiente para garantir que Portugal não depende exclusivamente das prioridades tecnológicas, comerciais ou culturais de terceiros.
É também desta forma que deve ser entendido o investimento de 5,5 milhões de euros no AMALIA. Não estamos simplesmente a falar de criar mais um chatbot. Construir um modelo desta natureza exige investigação, equipas especializadas, preparação de grandes quantidades de informação, infraestrutura tecnológica, testes e avaliação. Tal como o custo de um museu não se resume ao edifício ou às vitrinas, o custo de um modelo não se resume aos computadores onde é executado.
Que cultura queremos levar connosco para o futuro?
Durante séculos criámos instituições para garantir que determinadas coisas atravessavam gerações. Criámos arquivos porque documentos desaparecem, bibliotecas porque livros se perdem, museus porque objetos precisam de ser conservados e escolas porque conhecimento sem transmissão deixa de existir socialmente.
A Inteligência Artificial acrescenta agora uma nova camada a esta responsabilidade. Uma parte cada vez maior daquilo que as próximas gerações vão pesquisar, ler, traduzir, escrever, ver e aprender será mediada por sistemas de IA. Para elas, provavelmente, esta tecnologia nem sequer terá o carácter de novidade que ainda tem para nós. Será simplesmente parte da forma normal de utilizar tecnologia.
Isto significa que a presença de uma cultura no futuro já não depende apenas daquilo que conseguimos guardar em papel, pedra, áudio ou vídeo. Depende também daquilo que conseguimos tornar suficientemente representado nos sistemas que vão mediar conhecimento e comunicação.
É por isto que gosto da ideia do AMALIA enquanto museu digital vivo. Um museu que não serve para congelar o português numa fotografia de 2026, mas para garantir que existe matéria suficiente para perceber aquilo que veio antes, aquilo que existe agora e aquilo que continuará a mudar.
O português que os nossos avós falavam não é exatamente o nosso e o português das próximas gerações também não será igual ao que falamos hoje. Numa entrevista, Mia Couto lembra-nos, através da história de “improvisório”, que uma palavra pode nascer na rua porque alguém precisava dela. O mirandês lembra-nos que uma língua também se pode tornar frágil quando deixa de passar de geração em geração. E o caso da China e de Taiwan mostra-nos que os modelos também podem participar na construção e transmissão das narrativas dos Estados.
Tudo isto converge na mesma questão. Se estes modelos vão passar a fazer parte da forma como as pessoas aprendem sobre o mundo, então aquilo que conseguimos colocar neles interessa. Não para congelar a cultura ou impedir que mude, mas precisamente para garantir que continua a existir matéria suficiente para que essa mudança tenha continuidade.
Preservar não é congelar. É garantir continuidade suficiente para permitir mudança.
É por isto que não acho particularmente interessante discutir o AMALIA apenas a partir dos 5,5 milhões de euros. Sim, é muito dinheiro. Mas preservar sempre custou dinheiro. A diferença é que agora já não estamos apenas a decidir aquilo que queremos guardar do passado. Estamos também a decidir aquilo que queremos que continue presente no futuro.
Quanto custa chegar ao futuro e descobrir que uma parte da nossa cultura não chegou connosco?
Fontes e referências
- Governo de Portugal — apresentação do AMALIA
- ACL Anthology — AMALIA: A Fully Open Large Language Model for European Portuguese
- AMALIA — documentação do modelo
- Direção-Geral da Educação — neologismos e Mia Couto
- Diário da República — Lei n.º 7/99 sobre a língua mirandesa
- Benedict Anderson — Comunidades Imaginadas: Reflexões sobre a Origem e a Expansão do Nacionalismo
- Cyberspace Administration of China — regras para serviços de Inteligência Artificial generativa
- WIRED — análise das respostas do DeepSeek em temas politicamente sensíveis