Guia prático para integrar Inteligência Artificial na escola portuguesa
Leitura orientada do guia da ANPRI e dos referenciais da UNESCO, com foco em ética, pedagogia e equidade
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Introdução e enquadramento do guia da ANPRI
A Associação Nacional de Professores de Informática publicou o documento Inteligência Artificial na Escola Portuguesa, Guia para uma Integração Ética, Equitativa e Pedagógica, da autoria de Ricardo Carvalho e Fernanda Ledesma. O guia enquadra a integração da IA na escola como um processo que tem de ser pensado do ponto de vista ético, pedagógico e organizacional, e não como moda tecnológica ou catálogo de ferramentas.
O documento não é um manual técnico nem uma lista de aplicações. É um enquadramento estratégico que fornece princípios orientadores, frameworks de decisão e uma visão sistémica da forma como a escola portuguesa pode integrar IA de modo responsável. Este artigo resulta da leitura orientada desse guia, cruzada com o referencial de competências da UNESCO para professores em IA, e transforma essas orientações em passos práticos para docentes que estão a começar.
Aceda à publicação oficial do guia Inteligência Artificial na Escola Portuguesa.
O guia da ANPRI e a UNESCO sublinham três condições para que a IA faça sentido na escola.
- Ético, respeitar dados pessoais, evitar injustiças e não incentivar plágio.
- Pedagógico, servir a aprendizagem real, em vez de apenas gerar produtos vistosos.
- Equitativo, não aumentar desigualdades entre alunos por razões económicas, de acesso ou de contexto.
O guia enquadra também a necessidade de uma política de uso de IA na escola, articulada com o Plano de Ação para o Desenvolvimento Digital da Escola. Propõe que a IA seja vista como tecnologia de apoio à ação humana de docentes e alunos, e não como substituição das decisões pedagógicas.
1. O que significa usar IA na escola com cabeça
Para um professor comum, usar IA na escola não é programar robots nem dominar algoritmos complexos. É, acima de tudo, utilizar algumas ferramentas de forma consciente para apoiar o trabalho docente e orientar os alunos quando recorrem à IA.
Do ponto de vista do professor
- Preparar aulas, fichas e exercícios com maior rapidez.
- Criar questões de revisão e bancos de itens.
- Reformular enunciados para diferentes níveis de dificuldade.
- Gerar explicações alternativas de conceitos para alunos com ritmos distintos.
- Resumir artigos longos, relatórios ou documentos técnicos para planificação.
- Organizar estratégias e ideias para alunos com dificuldades específicas.
Do ponto de vista dos alunos
- Aprender a não copiar cegamente o que a IA produz.
- Perceber que a IA erra, inventa factos e pode ser enviesada.
- Usar IA como ponto de partida, não como produto final.
- Identificar onde usaram IA nos trabalhos e explicar como a utilizaram.
- Comparar respostas da IA com manuais, fontes fidedignas e explicações do professor.
Condições mínimas para usar com cabeça
- Clarificar que a IA não substitui o docente nem a responsabilidade pedagógica.
- Evitar depender de ferramentas pagas que excluam alunos.
- Evitar decisões automatizadas de alto impacto sobre avaliação e percurso escolar.
- Garantir que as regras de uso são transparentes para alunos e famílias.
A mensagem central do guia é clara. A Inteligência Artificial não é boa nem má por natureza. O impacto depende do modo como a escola, os professores e os alunos a utilizam.
2. Framework de avaliação de ferramentas (vetting)
O quadro de vetting da ANPRI funciona como filtro para decidir se uma ferramenta de IA pode ser usada na escola. Em vez de depender apenas do instinto, a escola passa a ter um conjunto de perguntas estruturadas que orienta decisões sobre risco, valor pedagógico e equidade. Para o professor, este quadro traduz-se em perguntas práticas que podem ser usadas antes de introduzir qualquer ferramenta em contexto de sala de aula.
2.1 A ferramenta precisa de dados dos alunos
A primeira questão é perceber se a ferramenta recolhe dados diretamente de alunos ou se funciona apenas com a conta do professor.
- Se requer registo de alunos, envio de trabalhos, fotografias ou dados pessoais, a escola torna-se responsável pelo tratamento.
- Essa situação implica verificar base de licitude, minimização de dados e, nalguns casos, avaliação de impacto de proteção de dados.
- Se a ferramenta pode ser usada apenas com a conta do professor, copiando ou colando materiais sem identificação de alunos, o risco é menor.
Exemplo. Uma conta institucional de IA, adquirida pela escola, em que o docente usa a ferramenta para gerar materiais, sem criação de contas para alunos, tem um perfil de risco diferente de uma aplicação que recolhe o email e a fotografia de cada aluno.
2.2 A ferramenta resolve um problema pedagógico real
A segunda questão é pedagógica. O uso da IA deve trazer benefício claro para a aprendizagem, e não apenas produzir trabalhos mais elaborados visualmente.
- Bom motivo. Melhorar o feedback formativo, apoiar a escrita, adaptar o nível de dificuldade, gerar questões de revisão.
- Mau motivo. Apenas tornar o trabalho mais vistoso, sem ganhos reais na compreensão ou na autonomia.
| Pergunta | Se a resposta for sim | Se a resposta for não |
|---|---|---|
| Precisa de dados dos alunos | Requer decisão da direção e, se necessário, do encarregado de proteção de dados | Pode ser usada apenas com a conta do professor |
| Resolve problema pedagógico real | Vale a pena experimentar em contexto piloto | Evitar uso apenas pela novidade |
| Tem risco de viés relevante | Usar apenas em contexto formativo, com verificação humana | Maior segurança, mesmo assim com espírito crítico |
| É adequada à idade dos alunos | Avançar de forma faseada, com acompanhamento | Evitar ou procurar alternativa |
2.3 Há risco de viés ou injustiça
Sempre que a ferramenta atribui pontuações, corrige automaticamente ou sugere classificações, o docente não deve assumir que o resultado é neutro. Sistemas treinados com grandes volumes de dados podem favorecer certos estilos de escrita, sotaques, contextos culturais ou tipos de exemplo e prejudicar outros.
- Evitar que a IA seja utilizada para decisões finais de avaliação.
- Usar feedback automatizado de forma formativa, sempre com revisão docente.
- Discutir explicitamente com os alunos a possibilidade de enviesamentos.
2.4 Adequação à idade e ao ciclo
Nos primeiros ciclos, o guia recomenda um uso mediado pelo professor, sem criação de contas individuais e com forte acompanhamento. A progressão faz-se à medida que os alunos ganham maturidade para compreender limitações e riscos.
Ferramenta gratuita da AQIA - Academia IA - que ajuda a melhorar instruções para atividades e tarefas com IA.
3. Competências fundamentais de docentes e alunos
O guia da ANPRI adapta o referencial da UNESCO para competências em IA de professores. Em vez de exigir domínio técnico profundo, propõe blocos de competências que qualquer docente pode desenvolver gradualmente ao longo da prática letiva.
3.1 Mentalidade centrada no humano
A IA deve aumentar a capacidade dos professores e dos alunos, e não substituir o julgamento profissional ou a relação pedagógica. A decisão final sobre avaliação, estratégias e acompanhamento permanece sempre do lado humano.
3.2 Ética e proteção de dados
- Compreender que dados pessoais não devem ser partilhados com serviços externos sem enquadramento.
- Perceber que os dados podem ser usados para treinar modelos e reaparecer em respostas futuras.
- Conhecer as obrigações de proteção de dados em contexto escolar.
3.3 Fundamentos de IA e limitações
Não é necessário explicar redes neuronais ou matemática avançada. O essencial é conseguir explicar, em termos simples, que os modelos de IA generativa aprendem com padrões de grandes volumes de texto e que, por isso, podem errar, inventar informação ou refletir enviesamentos.
Em termos práticos, basta conseguir dizer a uma turma que a ferramenta aprendeu com milhões de textos, principalmente de certas culturas e línguas, e que pode ter dificuldade em compreender bem alguns contextos locais ou expressões em português europeu.
3.4 Pedagogia com IA
O guia propõe que a IA seja usada para criar atividades em que os alunos analisam, comparam e melhoram respostas da IA, em vez de se limitarem a consumir o texto gerado. Isto inclui, por exemplo, pedir que identifiquem erros, lacunas, exageros ou simplificações excessivas.
3.5 Desenvolvimento profissional docente
A IA pode ser utilizada para apoiar o próprio desenvolvimento do professor, por exemplo ao:
- Resumir legislação ou documentos extensos.
- Sugerir ideias de estratégias para turmas com dificuldades específicas.
- Ajudar a redigir rubricas de avaliação ou critérios de classificação.
- Organizar calendários, sequências didáticas ou planos de recuperação.
A competência central não é dominar a tecnologia em abstrato, mas saber em que situações faz sentido usá-la, como explicar as suas limitações aos alunos e como manter o foco na aprendizagem real.
4. Preparar o uso de IA com os alunos
O guia insiste que o uso de IA pelos alunos deve ser enquadrado por regras claras, negociadas com a turma e consistentes com o projeto educativo da escola. O objetivo não é proibir de forma acrítica nem permitir um uso sem orientação, mas construir uma cultura de utilização crítica e responsável.
4.1 Três regras de base para os alunos
Um conjunto simples de regras, proposto na leitura pedagógica do guia, pode ser apresentado em aula antes de qualquer atividade que envolva IA.
- A IA é auxiliar, não é autora. O trabalho final continua a ser do aluno.
- O aluno deve indicar em que parte do trabalho usou IA e de que forma.
- Tudo o que a IA escreve deve ser lido com espírito crítico e corrigido quando necessário.
Estas regras ajudam a clarificar que o objetivo é aprender a usar a ferramenta com discernimento, e não obter respostas prontas para entregar.
4.2 Que tipos de tarefas são adequados
O guia e o enquadramento pedagógico sugerem três grandes tipos de tarefas em que a IA pode trazer valor sem substituir o raciocínio dos alunos.
Preparação de conteúdos
- Gerar questões de revisão sobre um tema já lecionado.
- Criar variações de textos para diferentes níveis de leitura.
- Produzir resumos que depois são verificados e completados pelos alunos.
Apoio à avaliação formativa
- Fornecer explicações alternativas que os alunos comparam com a explicação do professor.
- Sugerir pistas que ajudam a desbloquear a resolução de um exercício.
- Permitir treino adicional em modo de pergunta e resposta, com supervisão.
Atividades de análise crítica
- Pedir aos alunos que identifiquem erros ou simplificações num texto da IA.
- Comparar uma resposta da IA com um manual, vídeo ou artigo científico.
- Reescrever uma resposta da IA de forma mais rigorosa ou mais adequada à turma.
4.3 Preparar uma aula piloto com IA
O guia prático sugere que a introdução de IA comece com uma aula piloto bem delimitada, em vez de uma mudança generalizada em todas as turmas ao mesmo tempo.
- Identificar uma ferramenta aprovada pela escola ou, em caso de dúvida, consultar a coordenação.
- Testar a ferramenta individualmente, uma ou duas vezes, para uma tarefa simples, como gerar perguntas.
- Refletir sobre o resultado. Ver o que funcionou bem e o que exigiu correção.
- Escolher uma turma concreta para o piloto e uma aula específica.
- Definir um papel claro para a IA na atividade, que não seja central nem substitua o trabalho dos alunos.
- Escrever as regras e explicar o objetivo da atividade no início da aula.
5. Exemplos de atividades com IA em diferentes disciplinas
Os documentos de leitura pedagógica do guia apresentam exemplos de atividades que ilustram o uso de IA como ponto de partida para análise crítica, revisão e aprofundamento. Seguem alguns exemplos adaptados, organizados por disciplina.
Português, análise crítica de um texto gerado por IA
Objetivo
Desenvolver a capacidade de análise crítica de textos interpretativos ou argumentativos produzidos por IA sobre uma obra, excerto ou tema estudado em aula.
Proposta de atividade
- O professor pede à IA um texto de análise ou opinião sobre um conto, poema ou crónica trabalhados na disciplina.
- Distribui o texto em papel ou em formato digital aos alunos.
- Pede que identifiquem o que está bem argumentado, o que está incompleto e o que está errado ou pouco fundamentado.
- Comparar com a análise construída em aula e registar as diferenças em síntese.
Português, reescrita e escolha de introduções
Objetivo
Trabalhar competências de escrita, nomeadamente abertura de textos, clareza e adequação ao destinatário.
Proposta de atividade
- O professor pede à IA várias introduções possíveis para um texto sobre um tema da disciplina.
- Cada aluno ou grupo escolhe a introdução que considera mais eficaz e justifica a escolha.
- A turma constrói em conjunto uma versão melhorada, combinando elementos das diferentes propostas.
História, entrevista a um especialista gerado por IA
Objetivo
Trabalhar investigação histórica com múltiplas fontes e desenvolver pensamento crítico face a respostas da IA.
Proposta de atividade
- Os alunos, em grupos, definem um conjunto de perguntas sobre um período histórico do programa.
- O professor pede à IA respostas a algumas dessas perguntas, simulando uma entrevista a um especialista.
- Os alunos comparam as respostas com manuais, documentos de época, vídeos documentais ou artigos fornecidos.
- Identificam acertos, lacunas e eventuais enviesamentos.
- Redigem um relatório final com as respostas verificadas e as correções introduzidas.
Ciências, análise da qualidade de explicações
Objetivo
Ajudar os alunos a distinguir explicações superficiais de explicações rigorosas sobre conceitos científicos.
Proposta de atividade
- O professor pede à IA uma explicação simples de um conceito, como fotossíntese ou outro do programa.
- A explicação é lida em aula e discutida coletivamente.
- Os alunos identificam o que está correto, o que é vago e o que está em falta.
- A turma constrói, com apoio do professor, uma versão mais rigorosa, com exemplos e linguagem adequada ao ano.
6. Um ano letivo típico com IA
O guia propõe que a introdução de IA na escola seja pensada à escala do ano letivo, articulando formação, pilotos e revisão de políticas. Isto permite aprender com a experiência, corrigir rumos e evitar decisões precipitadas.
6.1 Primeiro período, enquadramento e regras
- Formação interna básica sobre IA generativa e proteção de dados.
- Diagnóstico da situação atual. Que ferramentas já são usadas por docentes e alunos.
- Definição de princípios orientadores para o uso de IA na escola.
- Primeira versão de uma política interna de uso de IA, alinhada com o plano de desenvolvimento digital.
6.2 Segundo período, pilotos acompanhados
- Seleção de turmas e disciplinas para atividades piloto com IA.
- Registo de práticas, dificuldades e exemplos bem sucedidos.
- Momentos de partilha entre docentes sobre o que funcionou e o que deve ser ajustado.
6.3 Terceiro período, revisão e integração
- Revisão da política interna de uso de IA com base na experiência do ano.
- Atualização da lista de ferramentas autorizadas, em piloto e não recomendadas.
- Integração das decisões finais no plano de desenvolvimento digital da escola.
7. Liderança, política escolar e checklist para começar
O guia da ANPRI sublinha que a integração da IA não se resolve apenas com opções individuais de cada docente. Exige liderança institucional, política escolar clara e uma visão partilhada sobre ética e equidade.
7.1 Liderança e política de uso de IA
- Constituir um grupo de trabalho que inclua direção, docentes de diferentes áreas e, se possível, alunos e famílias.
- Articular a política de IA com o projeto educativo e com o plano de desenvolvimento digital.
- Definir princípios éticos em linguagem clara, compreensível por toda a comunidade escolar.
- Estabelecer regras explícitas para o uso de IA por docentes e alunos, com exemplos concretos.
- Criar uma ficha de vetting para novas ferramentas e procedimentos para a sua aprovação.
- Rever a política, pelo menos, uma vez por ano, incorporando experiências e novas obrigações legais.
Apoia a reflexão sobre o impacto energético e ambiental das ferramentas que a escola pondera utilizar.
7.2 Checklist para os primeiros passos de um docente
A leitura pedagógica do guia propõe uma checklist simples para o professor que quer dar os primeiros passos com IA na própria prática letiva.
- Identificar uma ferramenta aprovada pela escola ou consultar a coordenação antes de a usar com alunos.
- Testar a ferramenta sozinho em uma ou duas tarefas simples, como gerar exercícios de revisão.
- Refletir sobre a qualidade das respostas. Ver o que foi útil e o que exigiu correção significativa.
- Escolher uma turma concreta e uma aula específica para o primeiro piloto.
- Planear uma atividade em que a IA tem um papel claro e limitado, sem substituir o trabalho dos alunos.
- Explicar as regras de uso de IA à turma e clarificar o objetivo da atividade.
- Recolher feedback dos alunos e registar o que deve ser melhorado em futuras utilizações.
Conclusão, recursos IA Hoje e próximos passos
O desafio não é usar IA a todo o custo, nem tentar eliminá-la da vida escolar. O desafio é integrá-la com responsabilidade, de forma ética, pedagógica e equitativa, colocando a aprendizagem real em primeiro lugar. O guia da ANPRI e o referencial da UNESCO apontam para um caminho de inovação crítica, centrada no humano e alinhada com os valores da escola pública.
A partir daqui, o mais importante é começar pequeno, aprender com a prática e partilhar experiências. Cada escola tem o seu contexto, os seus recursos e o seu tempo. O que este guia propõe é um conjunto de referências que ajudam a transformar princípios em decisões concretas de sala de aula e de política escolar.
Recursos de apoio no IA Hoje
Para apoiar escolas, docentes e entidades de formação, o IA Hoje disponibiliza ferramentas e serviços complementares ao guia da ANPRI, focados em práticas concretas com IA generativa.
Bolsa de formadores de IA
Serviço do IA Hoje que aproxima escolas, centros de formação e formadores de IA para ações de formação e apoio a projetos. Para quem procura formadores.
Treinador de Prompts
Ferramenta gratuita da AQIA que ajuda docentes e formadores a melhorar instruções para chatbots e sistemas de IA generativa, permitindo ajustar atividades ao nível das turmas e aos objetivos de aprendizagem.