A era do turismo inteligente

Hugo Teixeira Francisco
Hugo Teixeira Francisco
Especialista em IA no Turismo
Dica: Este artigo inclui a apresentação em vídeo no final da página.

Estará certamente o leitor a pensar o que é, afinal, o turismo inteligente e se, por oposição, o turismo até agora foi menos inteligente, ou até, em alguns casos, simplesmente cego às suas próprias evidências.

A provocação é intencional. Porque a diferença não está na inteligência dos agentes do território, mas antes na inteligência dos sistemas que suportam a decisão.

Premissas do turismo inteligente

Quando falamos de turismo inteligente, falamos de um modelo de gestão assente em 3 premissas: a primeira são os dados, seguidos da tecnologia e da capacidade de adaptação em tempo real.

Um turismo que não se limita a promover destinos, mas que os gere de forma integrada, eficiente e sustentável, com base em informações concretas sobre o comportamento dos visitantes, a performance da oferta e o impacto nos territórios.

E isto liga-se diretamente ao conceito de territórios inteligentes: ecossistemas onde diferentes fontes de dados, mobilidade, consumo, ambiente e experiência do visitante, são recolhidas, analisadas e transformadas em decisões operacionais e estratégicas. Territórios que aprendem, ajustam e evoluem continuamente.

A mudança estrutural na gestão do turismo

Há uma mudança silenciosa, mas profundamente estrutural, que terá de acontecer no turismo. Não se trata de novos destinos, nem de campanhas mais criativas ou orçamentos mais robustos. Trata-se de algo mais determinante: a forma como pensamos, medimos e decidimos tem de mudar.

Durante décadas, o turismo foi gerido com base em intuição, experiência acumulada e alguma estatística, quase sempre desfasada no tempo. Funcionou, em parte, porque o contexto era mais previsível.

Mas esse tempo acabou, uma vez que hoje, num mercado global e em constante mudança, gerir um negócio ou um destino turístico sem dados atualizados é como conduzir olhando apenas pelo retrovisor. E, na nova realidade competitiva, isso não é apenas ineficiente, é perigoso.

Entramos então na era do turismo inteligente. Esta era define-se por uma mudança de paradigma: sair de uma lógica reativa para uma lógica preditiva, sair da opinião para a evidência, sair da análise tardia para a decisão em tempo real.

O princípio de medir para gerir

Peter Drucker sintetizou este princípio há décadas com uma frase que continua a ser desconfortavelmente atual: "o que não se pode medir, não se pode gerir".

No turismo, habituámo-nos a medir tarde, com relatórios trimestrais, balanços anuais, indicadores que chegam quando as decisões já foram tomadas, ou quando as oportunidades já passaram. A questão nunca foi apenas medir, foi medir a tempo de agir.

Hoje, pela primeira vez, temos as ferramentas para o fazer com muita qualidade.

Plataformas como o TravelBI, do Turismo de Portugal, vieram democratizar o acesso a dados críticos do setor, desde dormidas e estada média até mercados emissores e padrões de sazonalidade. Mas o verdadeiro salto não está no acesso à informação. Está na capacidade de a transformar em conhecimento útil e, sobretudo, em ação.

O papel central da inteligência artificial generativa

É aqui que a Inteligência Artificial Generativa (Gen A.I.) assume um papel central.

Através da IA generativa, tornou-se possível cruzar dados provenientes de múltiplas fontes e extrair padrões que, até há pouco tempo, exigiam equipas inteiras e semanas de trabalho analítico.

Hoje, um técnico municipal pode analisar informação de um dos cinco observatórios regionais de turismo sustentável, alinhados com a Organização Mundial do Turismo, como é o caso do Observatório do Turismo do Centro de Portugal, e combiná-la com tendências de pesquisa online, avaliações de visitantes e até variáveis externas, como condições meteorológicas ou fluxos de mobilidade.

O resultado é a obtenção de insights acionáveis, praticamente em tempo real.

Implicações práticas: de destinos a gestores

Este salto tem implicações práticas muito concretas. Permite, por exemplo, identificar antecipadamente o crescimento de interesse de determinados mercados por produtos específicos, como o turismo de natureza ou o enoturismo, e ajustar a comunicação e a oferta antes que a concorrência o faça.

Permite também transformar milhares de reviews dispersos em informação estruturada, identificando padrões de satisfação e pontos críticos da experiência turística, com impacto direto na gestão do destino.

No caso do Turismo do Alentejo e Ribatejo, que tem vindo a consolidar dados relevantes sobre comportamento do visitante e desempenho do território, o desafio já não está na recolha de informação, mas na sua ativação estratégica. Passar de um modelo descritivo, que explica o que aconteceu, para um modelo preditivo, que antecipa o que vai acontecer.

É neste ponto que o papel das Entidades Regionais de Turismo (ERT) e dos Municípios se transforma. Deixam de ser apenas promotores de destinos e passam a assumir-se, de forma clara, como gestores. E um gestor que não decide com base em dados está, na prática, a gerir no escuro.

O desafio cultural e o futuro

Os destinos que vão liderar a próxima década não serão necessariamente os que têm mais recursos, mas os que têm melhor inteligência. Inteligência entendida não apenas como tecnologia, mas como cultura de decisão. Uma cultura onde os dados são parte integrante do processo, onde os dashboards substituem relatórios estáticos e onde as equipas têm capacidade para interpretar informação e agir com rapidez.

O turismo inteligente não é, por isso, um conceito tecnológico. É um modelo de gestão. Um modelo que permite saber, quase em tempo real, quem está no território, o que procura, como consome e como avalia a experiência. Mas, mais importante, permite antecipar comportamentos e ajustar estratégias de forma dinâmica.

Naturalmente, este caminho não está isento de desafios. A integração de dados de múltiplas fontes, a capacitação das equipas, o investimento em tecnologia e a própria governança da informação são temas críticos. Mas o maior obstáculo não é técnico, mas sim cultural.

Persistimos, muitas vezes, em modelos de planeamento rígidos num mundo que funciona em tempo real. Continuamos a valorizar relatórios extensos quando o que precisamos são decisões rápidas. E, não raras vezes, ainda discutimos perceções quando temos dados disponíveis.

A questão deixou de ser se devemos usar Inteligência Artificial no turismo. A questão é quem a vai usar melhor. Porque os destinos que conseguirem transformar dados em ação vão ganhar eficiência, relevância e competitividade. Os outros continuarão a reagir, quando já deviam estar a antecipar.

O turismo está a evoluir para um sistema mais complexo, mais exigente e, simultaneamente, mais estimulante. Um sistema onde a intuição continua a ter lugar, mas onde a decisão informada é indispensável. Onde os territórios deixam de ser apenas lugares para visitar e passam a ser estruturas vivas, capazes de aprender, adaptar-se e evoluir.

Estamos, sem margem para dúvida, na era do turismo inteligente.

E a pergunta que fica não é tecnológica. É estratégica: quem está preparado para liderar esta nova era?

Sobre o autor

Hugo Teixeira Francisco é Especialista em Inteligência Artificial aplicada ao setor de Turismo e Hospitalidade, Professor Adjunto Convidado e CMO. Com um forte foco em Estratégia, Marketing Digital e Sustentabilidade, atua também como Diretor Regional da APPM, dedicando-se a capacitar o tecido empresarial e os territórios para os desafios da transformação digital baseada em dados.

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