A criatividade é humana

Renato aka Foan
Renato aka Foan
A criatividade é humana capa

Em Portugal, quase 30% dos empregos estão em risco elevado de automação. Em simultâneo projecta-se a criação de centenas de milhares de novos postos de trabalho ligados à tecnologia, análise de dados e criatividade. O trabalho não desaparece, muda radicalmente de forma e os criadores de conteúdos estão no centro desta transformação.

A questão já não é se a inteligência artificial vai entrar no processo criativo. Isso é um facto. A questão é se a vamos usar para elevar o nível da nossa capacidade de pensar ou para produzir versões cada vez mais polidas de mediocridade. Porque há uma armadilha silenciosa nesta revolução e nem todos dão por ela.

A máquina replica, não inventa

Os modelos generativos não pensam, não têm intuição nem sentem. São sistemas de previsão estatística sofisticados que, treinados em biliões de palavras, imagens e padrões, conseguem antecipar qual é a próxima palavra mais provável numa frase, qual é o estilo visual mais adequado para um briefing, e qual a estrutura narrativa que melhor funciona num determinado contexto.

A inteligência artificial é revolucionária, mas não é criativa.
É uma extrapolação do passado.

A inteligência artificial consegue prever o que é provável, mas não consegue imaginar o que é necessário ou subversivo. Não faz saltos conceptuais inesperados. Não questiona as suas próprias premissas. Não arrisca falhar de forma interessante.

A criatividade humana, essa, nasce precisamente do conflito, da experiência vivida, da emoção, do contexto cultural único de cada autor. É a capacidade de ligar conceitos que nunca ninguém ligou, de encontrar sentido onde só havia ruído, de propor uma visão que ainda não existe nos dados. E é por isso que, num mundo inundado de conteúdo gerado por IA, o pensamento verdadeiramente original vai valer ouro.

Princípios da criatividade com IA

Ilustração de Foan82 sobre criatividade e IA
Foan82.com

Se cruzarmos os dados sobre o futuro do trabalho com o papel da IA na criatividade, emergem alguns princípios claros.

Escrever é pensar não é produzir.

Se a IA fizer o texto por ti, também está a fazer uma parte do pensamento por ti. Isso pode ser aceitável em tarefas utilitárias mas é suicida quando falamos de visão, opinião, estratégia ou educação.

Os dados são o ponto de partida.

Uma parte importante da diferenciação no mercado de conteúdos vem da ligação entre substância factual e narrativa. A IA pode ajudar a vestir essa substância com forma apelativa, mas não deve inventar o conteúdo do zero.

Primeiro devemos garantir que há algo de verdadeiro e relevante a dizer e só depois usar a IA para fazer research, testar variações, formatos, tom e estrutura.

Questionar e refinar os conteúdos

É fundamental questionar e discordar da IA, pedir contra-exemplos, procurar vieses nos outputs e usar os modelos para ensaiar narrativas que vão contra o senso comum. A originalidade não vem da ferramenta. Vem de nós. A ferramenta, bem usada, acelera e refina a nossa expressão.

Novas competências

À medida que tarefas repetitivas são automatizadas, emergem funções que combinam tecnologia e humanidade de formas inéditas. Já se fala de especialistas em ética da IA que asseguram a transparência dos sistemas. Curadores de dados, que seleccionam e organizam informação para treinar algoritmos. Treinadores de algoritmos, que funcionam como professores de IA, afinando modelos através de feedback constante.

Mas também crescem as profissões criativas híbridas como AI First UX Designers, Human AI Interaction Designer e criadores de conteúdos híbridos que tiram partido da assistência da IA como Músicos, Artistas, Designers, Escritores, Jornalistas ou Marketeers. O que todas estas funções têm em comum é não serem trabalho puramente técnico nem puramente criativo, são a fusão inteligente de ambos.

E aqui está a boa notícia para criadores de conteúdos. Esta não é uma profissão de hoje, é um campo de treino para as competências que mais importam no futuro. Pensamento crítico, comunicação, criatividade, ética e capacidade de trabalhar com sistemas inteligentes.

A criatividade é humana.

O futuro da criatividade é com IA. Isso já não é opcional. A IA tornou-se infraestrutura invisível, como a electricidade ou a internet. Mas há uma diferença essencial entre infraestrutura e intenção.

Os dados e os modelos são preditivos e estendem padrões do passado. A criatividade permite-nos atingir o que ainda não existe.

Por isso, a mensagem final não é de medo nem de euforia. É de responsabilidade.

A ferramenta está aqui. O que fazes com ela define quem és.

E num mundo onde a mediocridade se tornou barata e abundante, a originalidade, a coragem de ter voz própria e a capacidade de pensar contra a corrente vão ser os activos mais valiosos que um criador pode ter.

A IA não pensa por ti. E é precisamente por isso que a criatividade é humana.

Este texto tem autoria humana com assistência de IA.

©️ Renato aka Foan82

Fontes de referência

  • Renato aka Foan82 (2025) Uma geração inteira está a estudar para empregos que não existirão. Notion. https://medium.com/@foan82/uma-geração-inteira-está-a-estudar-para-empregos-que-não-existirão-0691c1d005f3
  • Ivcevic, Z., Grandinetti, M. (2024). Artificial intelligence as a tool for creativity. Journal of Creativity, 34(2), 100079. https://doi.org/10.1016/j.yjoc.2024.100079
  • Marchant, J. (2025). Can AI be truly creative? Nature, 647(8088), 24–26. https://doi.org/10.1038/d41586-025-03570-y
  • Staff, K. W. (2025). Does AI limit our creativity. Knowledge at Wharton. https://knowledge.wharton.upenn.edu/article/does-ai-limit-our-creativity/?utm_source=chatgpt.com

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